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O problema dos tipos de atitude

COMO as duas teorias descritas nos captulos anteriores so 
inconciliveis,  preciso encontrar um ponto de vista acima delas, em que a unificao seja possvel. No 
podemos condenar uma simplesmente para favorecer a outra, por mais cmoda que seja essa soluo; porque, 
quando as duas teorias so examinadas sem parcialidade, no se pode negar que ambas contm verdades 
fundamentais. Por mais contraditrias que sejam, uma no exclui a outra. A teoria freudiana nos seduz por sua 
simplicidade, a tal ponto que quase nos causa lstima ao ser atacada por uma afirmao em contrrio. O mesmo 
vale para a teoria de Adier, que tambm  de uma simplicidade luminosa e convence tanto quanto a de Freud. 
No surpreende, pois, que os adeptos de ambas as escolas se aferrem intransigentemente s suas respectivas 
teorias  certas, porm unilaterais.  humano e compreensvel que no estejam dispostos a renunciar a uma 
teoria belssima e perfeita, trocando-a por um paradoxo ou, o que  pior ainda, perdendo- se na confuso de 
pontos de vista contraditrios. 
Como ambas as teorias so amplamente certas e, ao que 5 parece, explicam a matria,  bvio que a neurose 
deve ter 
dois aspectos contraditrios, um dos quais  apreendido pela teoria de Freud e o outro, pela de Adler. Como  
que um cientista s v um lado e um outro s o outro? Por que cada um pensa que a sua posio  a nica 
vlida? Provavelmente porque ambos vem na neurose antes de tudo aquilo que corresponde sua 
caracterstica pessoal.  pouco provvel que os casos de neurose que Adler chegou a analisar tenham sido 
inteiramente diversos dos que Freud conhecia.  lgico que ambos tenham partido de um mesmo material de 
experincia. Mas, como a peculiaridade de cada um faz enxergar as coisas de maneira diferente, desenvolvem 
opinies e teorias totalmente 
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diversas. Adler v como um sujeito que se sente inferior e derrotado procura aceder a uma superioridade 
ilusria, mediante protestos, manobras e outros estratagemas adequados, indiscriminadamente, contra 
pais, educadores, superiores, autoridades, situaes, instituies ou seja l o que for. At a sexualidade figura 
entre os estratagemas. Esta concepo est baseada numa supervalorizao do sujeito, em face do qual 
as caractersticas e a significao dos objetos desaparecem por completo. Estes so considerados, no mximo, 
como portadores de tendncias repressivas. Creio no estar equivocado na minha suposio de que a relao 
amorosa e outros anseios que visam objetos tambm sejam considerados por Adler como dimenses 
essenciais. Em sua teoria da neurose, porm, no lhes  atribudo o papel principal, como na de Freud. 
 Freud v seu paciente constantemente na dependncia de e relacionado com objetos importantes. Pai 
e me exercem um papel fundamental. Todas as influncias ou condicionamentos que eventualmente ainda 
venham a ter importncia na vida do paciente remontam, em causalidade direta, a essas potncias primordiais. 
O conceito de transferncia, ou, em outras palavras, a relao paciente/analista,  a pice de rsistance de 
sua teoria. Sempre se deseja um objeto especificamente qualificado, ou ento se lhe ope resistncia, e isso 
invariavelmente de acordo com o modelo da relao com os pais adquirido na primeira infncia. O que brota do 
sujeito  essencialmente um desejo cego de prazer. Mas esse desejo sempre recebe a sua qualidade de objetos 
especficos. Para Freuci, os objetos so de extrema importncia e tm a quase exclusividade da fora 
determinante, ao passo que o sujeito se torna surpreendentemente insignificante e, na realidade, no  mais 
do que uma fonte do desejo de prazer ou uma morada do medo. Como j salientamos, Freud tambm conhece 
os impulsos do eu; mas esta expresso j basta para indicar que sua idia do sujeito  diametralmente 
diversa da dimenso especial que cabe ao sujeito na concepo adieriana. 
Sem dvida, ambos os cientistas vem o sujeito em relao ao objeto; mas que diferena no modo de ver essa 
relao! Em Adler a nfase  posta num sujeito que se afirma e procura manter sua superioridade sobre os 
objetos, sejam eles quais forem. Em Freud, ao contrrio, a nfase  posta inteiramente nos objetos, que, 
conforme suas caractersticas es- 
peciais, so proveitosos ou prejudiciais ao desejo de prazer do sujeito. 
Esta disparidade no pode ser outra coisa seno uma cli! erena de temperamento, uma oposio entre 
dois tipos de esprito humano, num dos quais o efeito determinante provm preponderantemente do sujeito e 
no outro, do objeto. Uma posio mediana, que seria, digamos, a do senso comum, admitiria que a atuao 
humana  condicionada tanto pelo objeto quanto pelo sujeito. Ambos os estudiosos argumentam que sua 
teoria no pretende ser uma explicao psicolgica do homem normal, mas uma teoria da neurose. Sendo assim, 
Freud deveria explicar e tratar muitos dos seus casos pelo enfoque de Adier; este, por sua vez, deveria, em 
outros tantos casos, fazer srias concesses aos pontos de vista defendidos por seu exprofessor. O que, no 
entanto, no foi o que se deu, nem com um nem com o outro. 
Observando o dilema, eu me pergunto: ser que existem pelo menos dois tipos diferentes de pessoas, um dos 
quais se interessa mais pelo objeto e o outro por si mesmo? E podemos dar-nos por satisfeitos com a 
explicao de que um deles s v um lado e o outro s o outro e que por isso os resultados so diametralmente 
diferentes? Como j dissemos, seria absurdo admitir que o destino faa uma escolha to sutil dos pacientes 
que cada grupo caia nas mos do mdico que lhe convm. H muito tempo venho percebendo, tanto no que 
me diz respeito quanto em relao a meus colegas, que tratamos com relativa facilidade de certos casos, ao 
passo que em outros no b meio de acertar.  de importncia capital para o tratamento o fato de que se 
estabelea ou no uma boa relao entre o mdico e o paciente. Caso no se crie um relacionamento natural e 
de confiana dentro de um curto espao de tempo,  melhor que o paciente escolha outro mdico. Tambm 
nunca me envergonhei de recomendar a outro colega um paciente cujo tipo no se entrosasse com o meu ou 
me fosse antiptico. Isto no prprio interesse do paciente, pois num caso assim estou certo de que o meu 
trabaiho no seria bem feito. Todos temos as nossas limitaes pessoais. Principalmente como terapeutas que 
somos, sempre  bom ter isso em mente. Diferenas pessoais muito grandes ou incompatibilidades geram 
resistncias exageradas e suprfluas, que nem so justificadas. Na realidade, a controvrsia Freud/Adler no 
passa 
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de um simples paradigma, um caso entre os muitos tipos de atitude possveis. 
 Essa questo constituiu minha grande preocupao durante muito tempo. Finalmente, fundamentado em 
muitas observaes e experincias, cheguei a apresentar dois tipos bsicos de comportamento ou de atitude, 
ou seja, a introverso e a extroverso. A primeira atitude, quando normal,  caracterizada por um ser 
hesitante, reflexivo, retrado, que no se abre com facilidade, que se assusta com os objetos e sempre est um 
pouco na defensiva, gostando de se proteger por trs do escudo de uma observao desconfiada. A segunda, 
quando normal,  caracterizada por um ser afvel, aperentemente aberto, de boa vontade, que se adapta bem a 
qualquer situao, se relaciona facilmente com as pessoas e, no raro, se lana despreocupado e confiante em 
situaes desconhecidas sem levar em conta a eventualidade de certos riscos.  evidente que no primeiro caso 
 o sujeito quem decide e no segundo o objeto. 
 Naturalmente, esses traos no passam de um esboo rudimentar dos dois tipos. Empiricamente, essas duas 
atitudes raramente so observadas em seu estado puro. Mais adiante voltarei ao assunto. Muitas vezes no  
fcil determinar o tipo, porque h inmeras variaes e possibilidades de compensao. Alm das oscilaes 
individuais, as variaes podem ser determinadas pela predominncia de uma das funes da conscincia, 
como o pensamento ou o sentimento, o que imprime um carter especial na atitude bsica. As freqentes 
compensaes que o tipo bsico apresenta provm em geral dos ensinamentos da vida: aprendemos, s vezes 
depois de muito sofrer, que nem sempre podemos soltar as rdeas do nosso ser. Em outros casos, nos 
indivduos neurticos, por exemplo, muitas vezes no se sabe se estamos diante de uma atitude consciente ou 
inconsciente, uma vez que, devido  dissociao da personalidade, ora aparece uma metade, ora outra, 
confundindo o nosso julgamento. Por essa mesma razo,  to difcil conviver com pessoas neurticas. 
 As enormes diferenas entre os tipos, efetivamente existentes (descrevi oito grupos distintos no livro que 
acabo de citar)  
possibilitaram-me a compreenso das duas teorias controverti. das sobre a neurose como manifestaes de 
tipos antagnicos. 
Essa constatao redundou na necessidade de nos colocarmos acima das posies antagnicas, criando uma 
teoria que fosse justa, no para com uma ou com a outra, mas para com as duas igualmente. Logo,  
indispensvel fazer a crtica de ambas as teorias apresentadas. Essas teorias, quando aplicadas a ideais 
exaltados, atitudes hericas, dramaticidade ou uma convico profunda, so apropriadas para, atravs de um 
longo processo, traz-los de volta  realidade banal do dia-a-dia. No entanto, elas no deveriam ser aplicadas a 
tais coisas, porque as duas teorias so instrumentos pertencentes ao equipamento teraputico, bisturis 
impiedosos e afiados usados pelo mdico para extrair a parte doente e nociva do corpo do paciente. Nietzsche, 
com sua crtica destrutiva dos ideais, pretendia fazer o mesmo, pois os considerava como excrescncias 
doentias da alma da humanidade (h casos em que isso realmente  verdade): Nas mos de um mdico 
habilidoso, de um verdadeiro conhecedor da alma humana, que tenha o sentido das nuanas (para empregar 
a expresso de Nietzsche), e aplicadas ao que est realmente doente numa alma, ambas as teorias so 
corrosivos salutares, quando usadas em dosagens apropriadas a cada caso. Tornam-se prejudiciais e 
perigosas em mos inaptas para medir e avaliar. So mtodos crticos e tm em comum com a critica em geral o 
fato de serem bons onde algo deve e precisa ser destrudo, dissolvido e reduzido, mas s produziro dano 
onde for necessrio construir. 
Poderamos deixar passar essas teorias sem alardear a respeito, visto que, como venenos medicinais, so 
confiadas s mos seguras do mdico. A utilizao proveitosa desses corrossivos requer um conhecimento 
excepcional da alma.  indispensvel saber distinguir o doentio e intil do que tem valor e precisa ser 
conservado. Isto simplesmente pertence ao rol das coisas mais difceis. Quem quiser sofrer o impacto de uma 
leitura acerca dos enganos que podem ser cometidos por um mcdico psicologizante irresponsvel que se 
baseie em preconceitos baratos e pseudocientficos, que estude o trabalho de Moebius sobre Nietzsche, ou 
ento os diversos tratados psiquitricos sobre o caso de Cristo. Certamente tal pessoa 
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exclamaria conosco: coitado do paciente que for compreendido dessa maneira! 
 As duas teorias da neurose no so gerais, mas sim remdios de uso tpico, dissolventes e redutivos. 
Voc no passa de...  s sabem dizer isso. Explicam ao doente que os seus sintomas vm daqui ou dali, no 
passam disso ou daquilo. Seria injusto afirmar que a reduo no seja eficaz em certos casos. Mas promover a 
teoria redutiva a uma teoria global da essncia, tanto da alma doente como da sadia, simplesmente no tem 
cabimento. Pois a alma humana, seja doente ou s, no pode ser esclarecida apenas redutivamente. No h 
dvida de que Eros est sempre presente, sempre e em toda parte. No h dvida de que o impulso de poder 
pefletra no que h de mais sublime e mais real na alma humana. Mas a alma no  s isso ou aquilo, ou, 
se preferirem, isso e aquilo, mas tambm tudo o que ela j fez e ainda vai fazer com isso. Uma 
pess.oa s foi compreendida pela metade, quando se sabe a provenincia de tudo o que aconteceu com ela. Se 
fosse s isso, pouco importaria se j houvesse morrido h muito tempo. Como ser vivo, ela no foi 
compreendida, porque a vida no  s ontem nem fica explicada quando se reduz o hoje ao ontem. A vida 
tambm  amanh; s compreendemos o hoje se pudermos acrescent-lo quilo que foi ontem e ao comeo 
daquilo que ser amanh. Todas as manifestaes psicolgicas da vida so assim, inclusive os sintomas 
doentios. Pois os sintomas neurticos no so efeitos de causas passadas, ou seja, da sexualidade infantil 
ou do impulso de poder infantil, mas tambm tentativas de uma nova sntese de vida. Tentativas frustradas, 
no resta dvida, mas que nem por isso deixam de ser tentativas, com um germe de valor e sentido. So 
embries abortivos devido a condies desfavorveis de natureza interna e externa. 
 O leitor perguntar, com certeza: diga-me, pelo amor de Deus, que valor e que sentido pode ter uma neurose, 
esse flagelo intil e repugnante da humanidade! Ser nervoso  de que serve isso? Ora, provavelmente para as 
mesmas razes por que Deus criou as moscas e as demais pragas: para que o homem se exercite na virtude da 
pacincia. Por mais tolo que seja esse pensamento do ponto de vista da cincia, ele  sbio do ponto de vista 
da psicologia.  s substituir pragas por sintomas nervosos. At Nietzsche, com seu desmedido desdm 
por tolices e banalidades, reconheceu mais de uma vez 
tudo quanto devia  sua doena. J vi mais de uma pessoa cuja vida s teve utilidade e sentido graas a uma 
neurose, que a impedia de cometer todas as asneiras decisivas da vida, obrigando-a a levar uma existncia 
que desenvolvesse seus germes preciosos, que teriam sido sufocados caso a neurose, com mos de ferro, no 
a tivesse colocado em seu devido lugar. Pois bem, h pessoas cujo sentido e significado da vida jaz no 
inconsciente, sendo seu consciente s transvios e descaminhos. Em outras pessoas se d o contrrio; sua 
neurose tambm tem outro significado. Neste caso, uma ampla reduo  indicada, mas no no outro. 
O leitor admitir que em certos casos a neurose possa ter um sentido positivo, mas continuar negando que em 
todos os pequenos casos corriqueiros e banais possa ter uma finalidade de to grande alcance e sentido. 
Perguntar, por exemplo, qual o valor da neurose no caso anteriormente descrito de asma e estados histricos 
de pavor. Concordo: neste caso, seu valor no  evidente, principalmente quando considerado do ponto de 
vista de uma teoria redutiva, isto , do lado sombrio de um desenvolvimento individual. 
Como vemos, ambas as teorias de que falamos tm em comum o fato de desvendarem impiedosamente o lado 
sombrio do homem. So teorias, ou melhor, hipteses que nos explicam em que consiste o fator que provocou 
a doena. Logo, tratam no dos valores de uma pessoa, mas dos seus desvalores, que sempre perturbam ao 
se manifestarem. 
Um valor  uma possibilidade atravs da qual a energia pode chegar a desenvolver-se. No entanto, na 
medida em que um desvalor tambm  uma possibilidade de desenvolvimento da energia  e que se observa 
nitidamente na considervel energia inerente .s manifestaes neurticas  tambm pode ser considerado 
um vaZo, mas um valor que proporciona manifestaes prejudiciais e inteis de energia. A bem dizer, a 
energia em si no  boa nem m, nem til nem prejudicial, mas neutra, posto que tudo depende da forma como 
a energia  aplicada. A forma  que d qualidade  energia. Mas, por outro lado, a forma sem a energia tambm 
 neutra. Para que se produza um valor verdadeiro,  indispensvel que haja energia, de um lado, e, do outro, o 
valor da forma. Na neurose h energia psquica, sem dvida, mas numa forma inferior e 
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no aproveitvel. As concepes das duas teorias redutivas s servem para dissolver essa forma 
inferior. Neste ponto, agem como corrosivos. Assim, obtemos energia livre, mas neutra. At hoje 
predominava a idia de que essa energia recm-obtida ficava  disposio do consciente do enfermo, podendo 
ser por ele empregada do modo que lhe aprouvesse. Enquanto se considerava a energia como mera fora do 
impulso sexual, falava-se em sublimao e utilizao da mesma. Supunha-se que, com a ajuda da anlise, o 
paciente fosse capaz de sublim-la, isto , de us-la, no para exercer a sexualidade, mas para o exerccio de 
uma arte ou outra atividade qualquer que fosse boa ou til. Segundo este ponto de vista, o paciente tem a 
possibilidade de realizar a sublimao das suas foras impulsivas de acordo com a sua vontade e a sua 
tendncia. 
 At certo ponto tal opinio tem sua razo de ser, na medida em que o homem tem condies de imprimir uma 
diretriz especfica e determinada  sua vida. Sabemos, no entanto, que no existe previso humana ou filosofia 
de vida capaz de predeterminar o rumo da nossa vida, a no ser a curto prazo. Isto  vlido apenas para o tipo 
de vida comum, no para o tipo herico. Este ltimo modo de vida tambm existe, mas  
incontestavelmente mais raro do que o primeiro. E a ele no se aplica a afirmao que acabamos de fazer a 
respeito de se imprimir a curto prazo um rumo definido  vida. O rumo da vida herica  incondicional: so 
as decises do destino que a orientam; pode ser que a resoluo de seguir uma determinada direo se 
mantenha inabalvel at o amargo fim. Mas, em geral, o mdico s trata de pessoas humanas; raramente, de 
heris voluntrios. Nos casos de herosmo, trata. se em geral de um suposto heroismo, que no passa de 
obstinao infantil contra um destino mais forte, ou ento de uma atitude presunosa para encobrir um 
sentimento de inferioridade. No poderoso dia-a-dia h infelizmente pouco lugar para coisas fora dos padres 
que sejam sadias. H pouco lugar para o heroismo ostensivo. No que o desafio do herosmo nunca bata  
nossa porta. Muito pelo contrrio! Enfrentar a vida cotidiana, com todas as suas exigncias banais de 
dedicao, pacincia, perseverana e sacrifcios, humildemente, sem visar o aplauso, sem grandes gestos 
hericos  este  o nosso herosmo cotidiano, invisvel para os outros. Maantes, enfadonhas exigncias, que, 
quando no acolhidas, produzem neurose. Para escapar a elas, muitos j ousaram tomar a grande de- 
ciso da sua vida e lev-la a cabo sem se importar com a opinio alheia. Diante de um destino assim, s nos 
resta mdnarmo-nos. Mas, como dissemos, esses casos so raros; os outros constituem a grande maioria. O 
rumo dessas vidas no obedece a uma linha simples e bem traada. O destino abre-se diante delas, confuso e 
com uma profuso de possibilidades. E no entanto s uma dessas possibilidades  a sua, o caminho certo. 
Quem se atreveria  por mais que conhecesse seu prprio carter  a determinar de antemo essa nica via 
possvel? Com fora de vontade pode-se conseguir muita coisa, no resta a menor dvida. Mas, considerando 
o destino de certas personalidades dotadas de grande fora de vontade,  um erro fundamental querer 
submeter seu prprio destino  sua vontade, a qualquer preo. Nossa vontade  uma funo dirigida pela 
reflexo; logo, ela depende da qualidade da nossa reflexo. A reflexo  a verdadeira reflexo  tem que ser 
racional, isto , sensata. Mas j foi provado, ou ser possvel provar algum dia, que vida e destino 
concordam com a nossa razo humana ou so racionais? Pelo contrrio, temos base para suspeitar que so 
irracionais ou, em ltima anlise, que tm um fundamento que transcende a razo humana. A irracionalidade 
dos acontecimentos revela-se no que chamamos de acaso. Temos que neg-lo, evidentemente, porque no 
podemos pensar a priori em processo algum que no seja causal e necessariamente condicionado; logo, no 
pode ser tambm casual. Mas na prtica o acaso sempre existe; alis, de uma forma to insistente que 
poderamos tranqilamente dispensar a nossa filosofia causal. A plenitude da vida tem normas e no as 
tem,  racional e irracional. Por isso a razo e a vontade fundada na razo s tm validade em pequenos 
espaos da vida. Podemos estar certos de uma coisa: quanto mais prolongarmos o rumo escolhido pela razo, 
tanto mais excluiremos a possibilidade de viver a vida irracional, que, no entanto, tem o mesmo direito de ser 
vivida. O fato de o homem ter chegado  condio de imprimir rumo  vida foi de inegvel utilidade. Podemos 
afirmar, e com toda razo, que a maior vitria da humanidade foi a conquista da racionalidade. No entanto, no 
queremos dizer que isso deva continuar ou continue sempre assim, acontea o que acontecer. A terrvel 
catstrofe da 1 
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Guerra Mundial veio frustrar por completo o mais otimista dos racionalistas culturais. Em 1913, 
Ostwald escrevia as seguintes palavras: O mundo inteiro concorda que o estado atual de paz 
armada  insustentvel e que pouco a pouco a situao se tomar impossvel. Est exigindo 
sacrifcios imensos de cada nao, que ultrapassam de longe as despesas destinadas a fins culturais 
e no acedem a quaisquer valores positivos. Se a humanidade encontrasse meios e caminhos de 
eliminar esses preparativos de guerras que nunca sobrevm, essa imobilizao de considervel 
parcela da nao na faixa de idade mais vigorosa e produtiva para fins de tremamento de guerra e os 
inmeros prejuzos decorrentes do atual estado de coisas, seria possvel obter uma economia de energias de 
tais propores que, a partir da, promoveria um florescimento imprevisvel do desenvolvimento cultural. Pois 
a guerra  semelhante  luta pessoal para solucionar as contradies de vontades diferentes: o mais antigo 
de todos os recursos possveis e, por isso mesmo, o mais intil, o que acarreta o mais grave desperdcio de 
energia. A total eliminao tanto da guerra potencial como da guerra real  inteiramente conforme ao 
esprito do imperativo energtico, e  um dos mais importantes desafios  cultura dos nossos dias. 
 Mas a irracionalidade do destino no quis o mesmo que a raconalidade dos pensadores bem 
intencionados. Quis muito mais do que a simples utilizao dos soldados e das armas armazenadas: quis 
uma destruio monstruosa, tresloucada, uma chaina em massa, sem precedentes, para que a 
humanidade eventualmente entendesse que a inteno racional s consegue dominar um dos lados do 
destino. 
 O que e diz da humanidade em geral tambm se aplica a cada indivduo em particular, pois a humanidade  
formada por um conjunto de indivduos. A psicologia da humanidade corresponde  psicologia individual. A 
Guerra Mundial foi um terrvel ajuste de contas com a intencionalidade racional da civilizao. O que 
chamamos de vontade no indivduo chama. se imperialismo nas naes, pois a vontade  a expresso do 
poder sobre o destino, isto , a excluso do acaso. Civilizao  sublimao racional e utilitria de 
energias livres, produzida voluntria e intencionalmente. No indivduo d-se o mesmo. Da mesma forma que a 
idia de uma organizao da cul 6 Wllhekn Ostwald, Die PhZosopkie der Werte. 1913, p. 31Zs. 
tura universal sofreu uma cruel advertncia com esta guerra, assim o indivduo tambm precisa 
aprender vrias vezes em sua vida que as chamadas energias disponveis no so disponveis a seu bel-
prazer. 
Nos EUA um empresrio de uns 45 anos foi consultar-me. Seu caso ilustra muito bem o que acabei de 
dizer. Tratava-se de um tpico self-made man americano, que tinha comeado do nada e subira na vida 
por esforo prprio. Tinha sido muito bem sucedido em seus empreendimentos e fundara uma empresa 
gigantesca. Pouco a pouco conseguira organiz-la de tal forma que lhe foi possvel afastar-se de sua direo. 
Dois anos antes de me ver, havia se afastado da firma. At ento vivera exclusivamente para os negcios, 
concentrando nisso todas as suas energias, com a incrvel intensidade e unilateralidade caractersticas de 
um empresrio americano bem sucedido. Havia comprado uma fazenda maravilhosa, onde tencionava viver. 
Para ele viver significava cavalos, automveis, golfe, tnis, festas, etc. Mas fizera a conta sem o dono do 
restaurante. A energia em disponibilidade nada tinha a ver com essas perspectivas convidativas: 
encasquetou com algo bem diferente. Ao cabo de algumas semanas dessa vida nababesca, to ardentemente 
desejada, comeou a perscrutar obsessiva- mente estranhas e vagas sensaes do corpo; algumas semanas 
mais bastaram para precipit-lo numa hipocondria incrvel. Teve um colapso nervoso total. O homem sadio, 
que tinha uma fora fsica incomum e uma extraordinria energia, transformou-se numa criana 
chorona. E com isso acabou-se toda a sua glria. Tinha um medo atrs do outro e as obsesses 
hipocondracas torturavam-no mortalmente. Foi consultar um famoso especialista, que logo reconheceu que 
o que faltava ao homem era trabalho. O paciente concordou e retomou seu lugar na empresa. Mas, para seu 
grande desespero, no conseguiu mais sentir nenhum interesse pelos negcios. Nada ajudou: nem pacincia, 
nem resoluo. Por mais que fizesse, no conseguiu canalizar a energia de volta para os negcios. Como era 
de esperar, o seu estado agravou-se mais ainda. Tudo o que antes era energia viva e produtiva, voltou-se 
contra ele, violenta e destrutivamente. Houve como que uma revolta de seu gnio criador contra ele mesmo. 
Assim como criara antes grandes organizaes no mundo, agora seu demnio criava re quintados sistemas 
e mecanismos hipocondracos que o arrasavam. Quando o vi, j era uma runa moral, sem esperanas. 
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Em todo caso, tentei faz-lo ver que  possvel recolher a fabulosa energia como a que empregara 
no negcio, mas que a questo era: para onde canaliz-la? Pode acontecer que nem mesmo os mais 
belos cavalos, os carros mais velozes e as festas mais divertidas sejam um atrativo para a energia. 
No entanto, era razovel pensar que uma pessoa que dedicara uma vida inteira a um trabalho srio 
tivesse um direito natural aos prazeres da vida. Sim, se o destino se comportasse de acordo com o 
bom senso humano,  assim que deveria ser: 
primeiro, o trabalho; depois, o descanso bem merecido. Mas na realidade as coisas que acontecem 
so irracionais. A energia tem o inconveniente de exigir um fluxo adequado para se produzir; caso 
contrrio, fica represada e torna-se destrutiva. Regride a situaes anteriores: no presente caso,  
lembrana de uma infeco sifiltica que contrara 25 anos antes. Mas isto tambm no passava de 
uma das etapas no caminho de reviver as reminiscncias infantis, que nesse meio tempo se haviam 
praticamente esvado. A sua primitiva relao com a me  que orientou sua sintomatologia. 
Tratava-se de um mecanismo para despertar a ateno e o interesse da me (h muito falecida). 
E esta no foi a ltima etapa, pois a meta era obrig-lo a voltar ao prprio corpo, depois de ter vivido 
s com a cabea desde a juventude. Um dos lados do seu ser se diferenciara, deixando o outro 
retido num estado de torpor corporal. Precisava desse outro lado para poder viver. A depresso 
hipocondraca forava-o, por assim dizer, a tomar conhecimento do corpo, que sempre havia 
ignorado. Se ele tivesse tido condies de entender o sentido da depresso e da iluso hipocondraca 
e de conscientizar-se das fantasias resultantes de um tal estado, teria sido a salvao. Naturalmente, 
no fui correspondido no amor pelos meus argumentos, como era de se esperar. O caso estava 
avanado demais para que se pudesse contar com uma perspectiva de cura. S lhe restava 
continuar o tratamento at a morte. 
Este caso mostra claramente que no est em nossas mos encaminhar uma energia disponvel,  
vontade, para um objeto de nossa escolha. Com as energias aparentemente disponveis, obtidas aps 
a destruio das suas formas inaproveitveis pelos corrosivos da reduo, d-se em geral 
exatamente o mesmo. Como j dissemos, no melhor dos casos essa energia pode ser utilizada da 
forma que a vontade determina, mas s por um curto espao de tempo. Quase sempre ela se recusa 
a 
seguir as possibilidades racionalmente propostas pelo tempo afora. A energia psicolgica tem o 
capricho de querer satisfazer suas prprias exigncias. Por maior que seja a quantidade de energia 
existente, no podemos aproveit-la enquanto no conseguirmos estabelecer um fluxo. 
O problema do fluxo  uma questo eminentemente prtica, que se coloca na maioria das anlises. 
Por exemplo, no caso propcio de haver um encaminhamento da energia disponvel, a chamada 
lbido, para um objeto razovel, a nossa tendncia  acreditar que a transformao foi operada por 
um esforo consciente da vontade. Mas nos enganamos redondamente. Nem com o maior esforo 
do mundo conseguiramos isso, se j no houvesse simultaneamente um fluxo natural no mesmo 
sentido. A importncia do fluxo  constatada quando, apesar dos mais desesperados esforos e de o 
objeto escolhido e a forma desejada serem os mais convincentes e sensatos possveis, no se 
consegue operar a transformao, produzindo apenas uma nova represso. 
Estou mais do que convencido de que o caminho da vida s continua onde est o fluxo natural. Mas 
nenhuma energia  produzida onde no houver tenso entre contrrios; por isso,  preciso encontrar 
o oposto da atitude consciente. E interessante verificar como essa compensao dos opostos 
tambm teve sua funo na histria da teoria da neurose: a teoria de Freud representa Eros; a de 
Adler, o poder. Pela lgica, o contrrio do amor  o dio; o contrrio de Eros, Phobos (o medo). 
Mas, psicologicamente,  a vontade de poder. Onde im pera o amor, no existe vontade de poder; e 
onde o poder tem precedncia, a falta o amor. Um  a sombra do outro. Quem se encontra do 
ponto de vista de Eros procura o contrrio, que o compensa, na vontade de poder. Mas quem pe a 
tnica no poder, compensa-o com Eros. Visto do ponto de vista unilateral da atitude consciente, a 
sombra  uma parte 
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Inferiorda personalidade. Por isso,  reprimida, devido a uma intensa resistncia. Mas o que  reprimido 
tem que se tornar consciente para que se produza a tenso entre os contrrios, sem o que a continuao do 
movimento  impossvel. A conscincia est em cima, digamos assim, e a sombra embaixo. E como o que est 
em cima sempre tende para baixo, e o quente para o frio, assim todo consciente procura, talvez sem perceber, o 
seu oposto inconsciente, sem o qual est condenado  estagnao,  obstruo ou  petrificao.  no oposto 
que se acende a chama da vida. 
 Foram concesses  lgica intelectual, por um lado, e ao preconceito psicolgico, por outro, que levaram 
Freud a qualificar o contrrio de Eros como impulso de destruio e morte. Ora, antes de mais nada, Eros no  
sinnimo de vida. Mas quem pensa assim evidentemente acha que o seu contrrio  a morte. Em segundo 
lugar, o oposto do seu princpio supremo , para todo o mundo, aparentemente, o princpio de destruio, a 
morte, o mal pura e simplesmente. A pessoa no o julga capaz de uma fora positiva de vida, por isso o teme e 
evita. 
 Como vimos, existem muitos princpios supremos de vida e de filosofia, com suas respectivas formas de 
contrrios compensatrios. J salientei dois tipos de contrrios, que, a meu ver, so os principais. Designei-os 
como tipos introvertidos e extrovertidos. William James j havia notado a existncia desses dois tipos 
entre os pensadores. Classificara-os em atenderminded e tough-minded. Ostwald tambm props para os 
grandes sbios uma distino anloga: o tipo clssico e o tipo romntico. Escolhi esses dois nomes entre 
muitos outros s para mostrar que no me encontro isolado nesta minha idia dos tipos. Provei, com minhas 
pesquisas histricas, que um grande nmero de importantes questes e conflitos na. histria do esprito 
repousam na oposio desses dois tipos. A mais significativa dessas questes  a oposio entre 
nominalismo e realismo, que comeou com a divergncia entre as escolas platnica e megrica e foi 
herdada pela filosofia escolstica. Abelardo teve ento o grande mrito de, pelo menos, tentar unificar os 
pontos de vista opostos no conceitualismo. Essa controvrsia continuou at nossos dias, manifestando-se 
na oposi o entre idealismo e materialismo. Como na histria do esprito em geral, assim tambm 
cada indivduo participa por sua vez dessa oposio entre os tipos. Uma pesquisa mais cuidadosa 
revelou que os casamentos se fazem de preferncia entre esses dois tipos, inconscientemente, para 
uma complementao recproca. A natureza reflexiva do introvertido leva-o a refletir ou a meditar 
sempre antes de agir. Sua atuao , evidentemente, mais lenta. Pela timidez e desconfiana diante 
dos objetos , evidentemente, mais lenta. Pela timidez e desconfiana diante dos objetos,  levado a 
hesitar e sempre encontra dificuldades em adaptar-se ao mundo exterior. Inversamente, o 
extrovertido tem um relacionamento positivo com as coisas. Ele , por assim dizer, atrado por elas. 
 tentado por situaes novas e desconhecidas. Chega a se lanar de corpo e alma em coisas 
novas, s para conhec-las. Em geral, age primeiro e s depois reflete. Sua ao  rpida, sem 
hesitaes ou escrpulos. Ambos os tipos so como que criados para uma simbiose. Um encarrega-
se da reflexo; o outro, da iniciativa e da ao prtica. Quando se casam, esses dois tipos podem 
formar um casal ideal. Enquanto esto totalmente absorvidos com a adaptao s inmeras 
necessidades da vida, combinam maravilhosamente bem. Mas depois que o homem ganhou dinheiro 
suficiente ou quando uma herana importante lhes cai do cu e faz cessar a necessidade externa, 
eles tm tempo para se preocupar um com o outro. Antes disso, voltavam as costas um para o outro 
e lutavam pela sobrevivncia. Agora, porm, voltam-se um para o outro, querem entender-se e 
descobrem que nunca houve entendimento entre eles. Cada qual fala uma lngua diferente. Assim se 
instala a briga entre os dois tipos. Briga violenta, cheia de veneno e de acusaes depreciativas e 
recprocas, mesmo quando recnditas e inconfessas; pois o valor de um  desvalor do outro. Seria 
rezovel pensar que a conscincia do prprio valor poderia bastar para reconhecer tranqtiilamente o 
valor do outro, tornando suprflua qualquer disputa. Vi grande nmero de pessoas argumentando 
assim, sem no entanto chegar a qualquer resultado satisfatrio. Quando se trata de pessoas normais, 
esse tempo de transio  mais ou menos bem superado. Normal  a pessoa que simplesmente 
consegue viver, quaisquer que sejam as circunstncias, contanto que lhe sejam garantidas as 
condies mnimas de vida. Mas muitos no o conseguem; por Isso no existem muitas pessoas 
normais. O que comumente 
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entendemos por homem normal , na realidade, o homem ideal, portador de uma feliz mistura de carter  o 
que  rarssimo. A grande maioria das pessoas mais ou menos diferenciadas requer condies de vida que lhes 
garantam algo mais do que simplesmente comer e dormir com relativa segurana. Para essas, o fim de uma 
relao simbitica representa um abalo profundo. 
 No  fcil entender por que deve ser assim. Considerando que nenhum ser humano  exclusivamente 
introvertido nem exclusivamente extrovertido, ambas as atitudes existem dentro dele, mas s uma delas foi 
desenvolvida como funo de adaptao; logo, podemos supor que a extroverso cochila no fundo do 
introvertido, como uma larva, e vice-versa. Pois bem,  exatamente isso o que acontece. O introvertido tem em 
si uma parte extrovertida, inconsciente, porque os olhos de sua conscincia esto sempre voltados para o 
sujeito. Alis, ele v o objeto, mas tem imagens errneas ou inibitrias a respeito, de modo que sempre se 
mantm o mais distante possvel, como se o objeto fosse algo poderoso e perigoso. Quero esclarecer, atravs 
de um exemplo, o que acabo de dizer: dois rapazes caminham juntos pelo campo. Chegam a um castelo 
maravilhoso. Ambos gostariam de ver o castelo por dentro. O introvertido diz: Gostaria de saber como  por 
dentro. O extrovertido, por sua vez, diz: Vamos entrar; e vai entrando pelo porto. O introvertido o detm: 
Talvez seja proibida a entrada, imaginando vagamente uma srie de represlias, como violncias policiais, 
multas, cachorros brabos, etc. Ao que o outro replica: Podemos perguntar, na certa vo nos deixar entrar, 
imaginando velhos porteiros afveis, casteles hospitaleiros e possveis aventuras romnticas. Graas ao 
otimismo do extrovertido, conseguem realmente entrar no castelo. Mas agora comea a peripcia. O castelo foi 
reformado por dentro. S tem umas poucas salas, com uma coleo de velhos manuscritos. Por acaso, essa  a 
paixo do rapaz introvertido. Mal chega a v-los, fica como que transformado, absorto na contemplao dos 
tesouros, suas palavras exprimindo entusiasmo. Envolve o guarda numa conversa, para obter mais 
informaes. Como as respostas do guarda no o sastisfazem, ele pergunta pelo conservador e sai 
imediatamente  sua procura, para continuar a investigao. Mas, enquanto isso, a animao do extrovertido 
vai diminuindo cada vez mais; vai ficando de cara comprida e comea a bocejar. Nada de porteiros afveis, 
nada de hos pitalidad 
cavalheiresca, nem sombra de aventuras romnticas: 
apenas um castelo reformado. No precisava ter sado de casa para ver manuscritos. Enquanto cresce o 
entusiasmo de um, vai acabando a disposio do outro; o castelo o aborrece, os 
-manuscritos cheiram a biblioteca, a biblioteca faz com que se lembre da faculdade, a faculdade  associada a 
estudo, exames: 
uma ameaa. Pouco a pouco, um vu sombrio vai descendo sobre o castelo, antes to interessante e atraente. 
O objeto fica negativo. No  formidvel, exclama o introvertido, descobrir essa coleo maravilhosa assim 
por acaso? Eu estou achando isso aqui muito sem graa, responde o outro, sem esconder o seu mau humor. 
Isso irrita o primeiro, que resolve para si mesmo: Nunca mais vou viajar com esse sujeito! O extrovertido, por 
sua vez, fica irritado com a irritao do companheiro, pensa que sempre achara o outro um perfeito egosta, sem 
a menor considerao pelos outros. Onde j se viu desperdiar a linda primavera l fora! Poderamos estar 
aproveitando! E tudo por causa dessa curiosidade egosta! 
Que foi que aconteceu? Ambos caminham juntos em alegre simbiose, at chegarem ao castelo fatal. L dizia o 
introvertido pr-meditativo (prometico): Poderamos v-lo por dentro. O extrovertido ativo e ps-
meditativo (epimetico) abriu o caminho. Nessa altura, o tipo se inverte: o introvertido, que hesitava 
em entrar, no quer mais sair e o extrovertido amaldioa o momento em que entrou no castelo. O primeiro fica 
fascinado pelo objeto; o segundo, por seus pensamentos negativos. No instante em que o primeiro avistou 
os manuscritos, j estava perdido. Sua timidez desapareceu, o objeto tomou posse dele: entregou-se 
docilmente. Em compensao, o segundo sentiu uma resistncia crescente em relao ao objeto e, finalmente, 
fez-se cativo do seu sujeito mal humorado. O pri. meiro tornou-se extrovertido; o segundo, introvertido. 
Enquanto os dois caminhavam juntos na mais alegre harmonia, um no perturbava o outro, porque cada qual 
estava na sua, naturalmente. Eram positivos um para o outro, porque as suas atitudes se complementavam. 
Mas complementavam-se porque a atitude de um sempre compreendia a do outro. A rpida conversa que 
tiveram  ilustrativa: ambos querem entrar no castelo. A dvida do introvertido quanto  permisso para entrar 
tambm serve para o outro. A iniciativa tomada pelo ex II Ver meus comentrios a respeito de Prometeu e Epimeteu de Spitteler, 
em Psyc?wjoqjcj, Typen, 1950, p. 227ss, Obras Completas, Vol. 6  261ss. 
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trovertido tambm  de utilidade para o introvertido. A atitude de um tambm inclui o outro, e isso  quase sempre assim, 
quando um indivduo est na atitude que lhe  natural, porque essa atitude se adapta coletivamente, por assim dizer. Com a 
at.itude do introvertido tambm se d o mesmo, apesar de que ela sempre parte do sujeito; vai sempre s do sujeito para o 
objeto, enquanto que a atitude do extrovertido vai do objeto para o sujeito. 
Mas, assim como no introvertido o objeto sobrepuja o sujeito, atraindo-o, sua atitude perde o carter social. Esquece-se da 
presena do amigo; no o inclui mais. Submerge no objeto e no v quanto o amigo se aborrece. E vice-versa: o extrovertido 
perde a considerao para com o outro no momento em que sua expectativa no  satisfeita, retraindo-se em suas idias e 
humores subjetivos. 
Assim sendo, o acontecido pode ser formulado da seguinte maneira: por influncia do objeto, apareceu uma extroverso 
inferior no introvertido, ao passo que uma introverso inferior substituiu a atitude social do extrovertido. Dessa 
forma, voltamos  frase que nos serviu de ponto de partida: o valor de um  o desvalor do outro. 
Acontecimentos positivos ou negativos podem trazer  tona a funo contrria inferior. Sobrevindo isso, manifesta-se a 
hipersensibilidade. A hipersensibilidade  sintoma da existncia de uma inferioridade. Assim se 
estabelecem as bases psicolgicas da desunio e da incompreenso, no s entre duas pessoas, como tambm da ciso 
dentro de si mesmo. Alis, a natureza da funo inferior   caracterizada pela autonomia;  independente, ela nos 
acomete, fascina e enleia, a ponto de deixarmos de ser donos de ns mesmos e no nos distinguirmos mais exatamente dos 
outros. 
 Mesmo assim,  necessrio para o desenvolvimento do ca rte que esse outro lado, justamente essa funo inferior, 
tambm possa manifestar-se. No podemos permitir que outra 
pessoa se encarregue permanentemente, simbioticamente, de um 
dos lados da nossa personalidade. De um momento para outro 
podemos precisar da outra funo, como no exemplo acima, e 
no estaramos preparados. As conseqncias podem ser gra vssimas o extrovertido perde a sua relao indispensvel com 
os objetos e o introvertido, a sua, com o sujeito. Por outro 
lado,  indispensvel que a ao do introvertido no seja cons. tantemente inibida por preocupaes e 
hesitaes e que o extrovertido possa meditar sobre si mesmo, sem prejudicar as suas relaes. 
V-se por a que a extroverso e a introverso so duas atitudes naturais, antagnicas entre si, ou movimentos 
dirigi- dos, que j foram definidos por Goethe como dstole e sstole. Em sucesso harmnica, deveriam 
formar o ritmo da vida. Alcanar esse ritmo harmnico supe uma suprema arte de viver. Ou ser totalmente 
inconsciente, para que nenhum ato consciente venha perturbar a lei natural, ou ser to altamente consciente, a 
ponto de ser capaz de querer e poder executar tambm os movimentos opostos. Como no podemos retroceder 
para a inconscincia animal, s nos resta avanar no difcil caminho evolutivo em direo a uma conscincia 
maior.  verdade que essa conscincia  a que permite viver o grande Sim e o grande No da vida em liberdade 
e inteno   decididamente um ideal sobre-humano. Mesmo assim, no deixa de ser uma meta final. O estgio 
espiritual do nosso tempo consente apenas em querer conscientemente o Sim e em, pelo menos, suportar o 
No. Conseguir isso j  uma enorme conquista. 
O problema dos opostos como princpio inerente  natureza humana constitui uma etapa a 
mais no desenvolvimento do nosso processo de autoconhecimento. Em geral,  um problema da idade 
madura. O tratamento prtico de um paciente nunca vai comear por este problema  principalmente o de um 
jovem. Comumente, as neuroses juvenis so produzidas por um choque entre as foras da realidade e uma 
atitude infantil insuficiente, caracterizada, em sua causa, por uma dependncia anormal de pais reais ou 
imaginrios e, em sua meta, por uma criatividade deficiente, isto , por propsitos e ambies inadequados. 
Neste caso as redues de Freud e AcUer so perfeitamente indicadas. Mas existem muitas neuroses que s 
aparecem na idade madura ou que se agravam de tal forma que os pacientes se tornam incapacitados para o 
trabalho. Nestes casos  fcil comprovar que j existia em sua juventude uma excessiva dependncia dos pais, 
bem como uma srie de iluses infantis, sem que isso impedisse a escolha de uma profisso, seu exerccio bem 
sucedido e o casamento, um casamento levado aos trancos e barrancos, at que na idade madura a atitude 
mantida at ento entra em colapso. Obviamente, num caso desses, a conscientizao das fantasias infantis, da 
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dncia dos pais, etc., de nada adianta, embora seja uma parte necessria do processo, e geralmente no tem 
efeitos prejudiciais. No fundo, a terapia s comea realmente quando o paciente v que quem lhe barra o 
caminho no  mais pai e me, mas sim ele prprio, isto , uma parte inconsciente de sua personalidade que 
continua desempenhando o papel de pai e me. Por maior que seja a utilidade deste conhecimento, ele ainda  
negativo, pois diz apenas: Reconheo que no so meus pais que esto contra mim, mas eu mesmo. Mas 
quem  que se ope nele? Que parte misteriosa de sua personalidade  essa que se escondeu por detrs das 
imagens de pai e me e que por tanto tempo o fez acreditar que a origem do seu mal o atacou de fora? Esta 
parte  o oposto da sua atitude consciente, no lhe dar sossego e o perturbar at que seja aceita. No h 
dvida de que nos jovens libertar-se do passado j  suficiente; porque ainda tm um futuro promissor e cheio 
de possibilidades pela frente. Basta soltar umas amarras; o mpeto da vida far o resto. Mas o problema  
diferente para as pessoas que j deixaram boa parte da vida para trs, a quem o futuro no acena mais com 
fabulosas promessas, que nada mais esperam da vida seno os velhos e habituais deveres e os prazeres 
duvidosos da velhice. 
 O jovem que consegue livrar-se do passado vai transferindo as imagens dos pais a figuras que os substituam 
mais adequadamente: o sentimento de apego  me passa para a mulher, e a autoridade do pai, a professores e 
superiores que merecem seu respeito, ou ento a instituies. No  uma soluo fundamental, mas um 
caminho prtico, que tambm  percorrido pela pessoa normal, inconscientemente e, por isso mesmo, sem 
inibies ou resistncias considerveis. 
 Mas o problema do adulto, que j completou esse trecho do caminho com maior ou menor dificuldade,  
diferente. Procurou a me na mulher, o pai no marido, e encontrou-os. Honrou antepassados e instituies. Por 
sua vez, tornou-se pai e me e talvez j tenha ultrapassado esta fase. De repente viu que o que antes 
significava para ele progresso e satisfao no passa de engodo, restos de iluso infantil. Olha agora para 
tudo isso com um misto de desencanto e inveja, porque  sua frente s se descortina a perspectiva da velhice, 
o fim de todas as iluses. No h mais lugar para pai ou me. Todaa as iluses que projetou no mundo e nas 
coisas retornam a ele, pouco a 
pouco, cansadas, desgastadas. A energia de todas essas relaes lhe  restituida e entregue ao 
inconsciente, onde vivifica tudo quanto at ento deixara de desenvolver. 
Os impulsos, antes acorrentados na neurose, quando libertos, enchem o jovem de brio e esperana, 
dando-lhe a possibilidade de abrir-se mais para a vida. Na segunda metade da vida o 
desenvolvimento da funo dos contrrios, adormecida no inconsciente, significa renovao de vida. 
No entanto, este desenvolvimento no se faz mais atravs da soluo de ligaes infantis, da 
destruio de iluses infantis e da transferncia das imagens antigas para novas figuras, mas passa 
pelo problema dos contrrios. 
O princpio dos opostos j est, naturalmente, na base do esprito joem. Qualquer teoria psicolgica 
sobre a psique infantil deveria levar em conta esse dado da realidade. Os pontos de vista de Freud e 
Adier, portanto, s so contraditrios quando pretendem valer como teorias globais. Mas, na medida 
em que se contentarem com o ttulo de tcnicas auxiliares, j no entram em contradio nem se 
excluem mutuamente. A teoria psicolgica que quiser ser mais do que simples tcnica auxiliar tem 
que basear-se no princpio dos contrrios, pois sem ele s reconstruiria psiques neurticas 
desequilibradas. No h equilbrio nem sistema de auto-regulao sem oposio. E a psique  um 
sistema de auto-regulao. 
Retomando o fio que deixamos para trs, podemos dizer que agora ficou esclarecido por que a 
neurose contm justamente os valores que faltam ao indivduo. E tambm podemos voltar ao caso 
daquela jovem senhora e a ele aplicar os conhecimentos adquiridos. Suponhamos que essa doente 
seja anaUsada. No decorrer do tratamento vai percebendo os pensamentos inconscientes 
encobertos pelos sintomas. Vai recuperando, assim, a energia inconsciente que era toda a fora dos 
sintomas. Coloca-se ento a questo prtica: o que vai acontecer com a energia disponvel? De 
acordo com o tipo psicolgico da doente, seria razovel transferir novamente essa energia para um 
objeto tal como uma atividade filantrpica ou outra ocupao de utilidade. Este caminho  a 
exceo. S  possvel a pessoas dotadas de energia especial, capazes de doao total, ou a pessoas 
com disposio natural para atividades desse tipo. Na maioria dos casos, porm, no  o que 
acontece. preciso no esquecer que a lbido (energia psquica) j pos- 
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sui o seu objeto no inconsciente  nesse caso, o rapaz italiano ou um ser humano real que o substitua. 
Assim sendo, por mais desejvel que seja uma tal sublimao, ela  evidentemente impossvel. Pois em geral 
o objeto real oferece um fluxo melhor  energia do que uma atividade tica, por mais bela que seja. 
Infelizmente, h muita gente falando cio homem, mas sempre do homem ideal, de como seria bom que ele 
fosse, mas nunca do homem tal como ele  na realidade. Mas o mdico sempre lida com o homem real, que vai 
teimar em continuar o mesmo, at que sua realidade seja inteiramente aceita. A educao s pode ser 
feita a partir da realidade nua, no de uma imagem real deturpada. 
Infelizmente, em geral, o rumo a ser tomado pela energia disponvel no pode ser indicado pela nossa 
vontade. Ela segue o seu fluxo. Alis, j o tinha encontrado antes de estar completamente desligada da sua 
forma inaproveitvel, porque descobrimos que as fantasias da paciente, que antes giravam em torno do italiano, 
foram transferidas para o mdico. Por isso o prprio mdico tomou-se o objeto da libido inconsciente. Caso a 
doente se recuse terminantemente a reconhecer a transferncia 14 ou caso o mdico no compreenda o 
fenmeno ou o entenda mal, aparecero resistncias violentas que vo impossibilitar qualquer relao com o 
mdico. Os doentes no voltam mais, procuram outro mdico ou ento uma pessoa que os entenda, ou ainda, 
quando desistem de procurar, ficam atolados no problema. 
Mas se a transferncia se der e for aceita, ento vai-se encontrar no s uma forma natural de substituir a 
antiga forma, mas tambm uma possibilidade de dar vazo ao processo energtico relativamente isento de 
conflitos. Logo, quando se permite que a libido siga o seu curso natural, ela encontrar por si s o caminho para 
o objeto que lhe  destinado. Quando isso no acontece  porque a vontade rebelou-se contra as leis da 
natureza ou porque houve interferncias prejudiciais. 
